Tensão Pré-Menstrual - TPM
Incluído em 14/02/2005
A observação de que as mulheres experimentavam maior incidência
de cefaléia, queixas somáticas e aumento de tensão no período
pré-menstrual remonta aos tempos de Hipócrates e da escola da Grécia
antiga. O ciclo menstrual da mulher tem sido, assim, relacionado desde os primórdios
da medicina ao surgimento ou exacerbação de vários distúrbios
psíquicos, desde o simples aumento da ansiedade e irritabilidade, até
o surgimento de delírios e ideações suicidas.
Modernamente, as primeiras descrições do problema sob a denominação
de Tensão Pré-menstrual (TPM) aparecem em 1931 (Frank,
1931), onde se notava que as mulheres na última fase do ciclo menstrual
experimentavam tensão emocional e desconforto físico (Soares,
2000). Foram aventadas teorias psicológicas para explicar o fenômeno,
incluindo condições neuróticas, de identidade feminina,
conflitos, estressores, etc., como a base desse transtorno.
Também já se falou em Síndrome Pré-menstrual
(SPM), onde os principais sintomas físicos seriam o dolorimento e tumefação
das mamas (mastalgia), cefaléia e alterações do humor,
os quais acometeriam cerca de 75% das mulheres durante 3 a 10 dias anteriores
à menstruação. A partir do DSM-IV este distúrbio
passou a se chamar Transtorno Disfórico Pré-menstrual (TDPM).
Nesta classificação o TDPM está incluído em Transtornos
Depressivo Sem Outra Especificação.
Sobre o TDPM o DSM.IV diz:
" Transtorno disfórico pré-menstrual: na maioria dos ciclos
menstruais durante o ano anterior, sintomas (por ex., humor acentuadamente deprimido,
ansiedade acentuada, acentuada instabilidade afetiva, interesse diminuído
por atividades) ocorreram regularmente durante a última semana da fase
lútea (e apresentaram remissão alguns dias após o início
da menstruação). Estes sintomas devem ser suficientemente severos
para interferir acentuadamente no trabalho, na escola ou atividades habituais
e devem estar inteiramente ausentes por pelo menos 1 semana após a menstruação."
Assim sendo, podemos dizer que a Tensão Pré-Menstrual (TPM) é
um mal que atinge uma grande parte da população feminina. É
um período leigamente muito conhecido como "aqueles dias" .
Mas será que isso é normal? Será que todos os meses você
precisa "sofrer", passar por isso? Com uma grande variedade de intensidade
e de sintomas, a TPM acaba dependendo do estado emocional, físico e da
idade da pacientes.
Após esses estudos chegou-se à conclusão de que as pacientes
portadoras de TPM podem e devem ser tratadas adequadamente. A paciente nota
sensível melhora com o tratamento, seus filhos e maridos agradecem assim
como seus colegas de trabalho.
Muitos estudos vêem pesquisando sobre as eventuais causas da TPM e, até
agora, pode-se afirmar simplesmente que sua causa principal se relaciona ao
metabolismo próprio de cada paciente, aliado às mudanças
hormonais à que elas estão sujeitas. Portanto, a tensão
pré-menstrual (TPM) parece e ser um distúrbio relacionado ao desequilíbrio
entre os dois principais hormônios femininos envolvidos na segunda fase
do ciclo menstrual, isto é, após o período da ovulação
e que precede a menstruação.
Em alguns casos a TPM pode ser resultante de distúrbios orgânicos
que interferem no funcionamento dos ovários, das supra-renais ou de alterações
no funcionamento cerebral. Outras vezes parece tratar-se de uma conseqüência
de alguma notável alteração emocional afetiva, pois, diversas
evidências falam a favor de uma associação entre a TPM e
os transtornos depressivos, levando à sugestão de que um tipo
específico de alteração pré-menstrual, caracterizada
por modificações de humor, poderia representar um subtipo de algum
Transtorno Depressivo, o qual se manifestaria ciclicamente (Roy-Byrne et al,
1987).
E, de fato, a TPM se apresenta-se de forma bastante semelhante à descrita
para a depressão atípica, ou seja, com humor deprimido, reações
excessivas à alterações do ambiente, hipersonia (muito
sono), aumento do apetite com predileção por carboidratos, fadiga,
sensibilidade à rejeição, ansiedade e irritabilidade. Além
disso, outra evidência a favor da associação entre TPM e
transtornos depressivos é o fato de que um dos tratamentos mais efetivos
para controle dos sintomas pré-menstruais, é o uso de antidepressivos
inibidores seletivos da recaptação de serotonina (Freeman, 2001).
Alguns estudos mostram que, em torno de 80% das mulheres em geral apresentam
algum tipo de alteração no período pré-menstrual
e em 52% delas os sintomas interferem drasticamente no humor, no comportamento
e no organismo. As conseqüências emocionais da TPM podem afetar o
relacionamento social, ocupacional e conjugal dessas pessoas e o maior índice
de violência entre as mulheres está intimamente relacionado ao
período Pré-Menstrual?
Portanto, a Tensão Pré-Menstrual é um conjunto de alterações
físicas e emocionais que certas mulheres apresentam nos dias que antecedem
a menstruação. As principais alterações emocionais
são o humor irritável, depressivo ou instável, podendo
haver mudanças rápidas de atitude afetivas, como por exemplo,
passar de chorosa para irritável abruptamente. Há ainda diminuição
da tolerância com perda da paciência e crises de explosividade a
qualquer momento. Do lado depressivo pode haver sensação de falta
de energia, cansaço exagerado e dificuldades de concentração.
Do lado físico, as principais alterações podem ser dores
de cabeça, dores nas mamas, dores nas juntas, ganho de peso, sensação
de estar inchada, insônia ou sonolência e alterações
do apetite.
Para se fazer o diagnóstico é preciso que a mulher possua os
sintomas da TMP na maioria dos ciclos e não apenas em alguns.
Sintomas
A sintomatologia da TPM pode ser considerada em 4 grupos, os quais podem
manifestar-se isoladamente ou em combinação variável de
pessoa-a-pessoa:
1. com predomínio de ansiedade e agressividade;
2. com predomínio de alterações afetivas, notadamente
com sintomas depressivos.
3. com predomínio de queixas físicas resultantes de acúmulo
e retenção de líquidos;
4. com predomínio de alterações alimentares, desde anorexia
ou bulimia, ou mesmo alterações do apetite seletivo, como por
exemplo, vontade de consumir doces.
Esses 4 grupos de sintomas da TPM se relacionam a alterações
hormonais, alterações bioquímicas e metabólicas,
e a desequilíbrio dos neurotransmissores (substâncias relacionadas
à regulação do humor, da disposição e do
ânimo).
Apesar de 80% da população geral feminina apresentar sintomas
pré-menstruais, apenas cerca de 8% costumam satisfazer os estritos critérios
de diagnóstico para a Síndrome Pré-Menstrual, conforme
a listagem abaixo.
Critérios para Síndrome Pré-Menstrual
A paciente deve apresentar por 2 ou 3 ciclos menstruais 5 ou mais sintomas
da lista abaixo na última semana do ciclo, devendo tais sintomas estar
ausentes na pós-menstruação
1. Marcante humor depressivo, sentimentos de desesperança ou autodepreciativos
2. Marcante ansiedade e tensão
3. Marcante labilidade afetiva
4. Irritabilidade e/ou agressividade marcantes ou dificuldades de relacionamento
pessoal
5. Diminuição do interesse para atividades usuais
6. Dificuldades de pensamento, memória e concentração
7. Cansaço, fadiga e perda de energia
8. Alterações do apetite e/ou da aceitação de
determinados alimentos
9. Alterações do sono (insônia ou hipersonia)
10. Sensação subjetiva de opressão ou perder o controle
11. Outros sintomas físicos tais como turgência nos seios, cefaléia,
dor muscular, inchaço, ganho de peso.
12. O distúrbio deve interferir marcantemente com a ocupação,
atividades sociais e de relacionamento.
Apesar desses critérios, a expressiva maioria das mulheres que experimentam
algum tipo de mal estar durante o período pré-menstrual, embora
não sejam rigidamente classificadas como portadoras de Síndrome
Pré-Menstrual, podem ser abordadas como portadoras de Tensão Pré-Menstrual
sob o ponto de vista clínico e terapêutico.
Causas
Na década de 50 a médica inglesa Katrina Dalton repensou as
causas da Tensão Pré-Menstrual (TPM) relacionando-a, principalmente,
com a diminuição de progesterona durante o último quarto
do ciclo menstrual. Havia algumas observações sobre a diminuição
dos sintomas de TPM com o uso de progesterona nesta fase do ciclo. Essa constatação
acabou por estabelecer um período de 30 anos onde se indicava a reposição
desse hormônio como tratamento para TPM.
Contudo, nos últimos 12 anos as teorias acerca da alteração
entre progesterona e estrógenos têm sido sistematicamente refutadas.
Pesquisas têm demonstrado que os níveis de progesterona e estrogênio
são similares nas pacientes com TPM e naquelas sem esse transtorno. Estudos
duplo-cego mostraram que a administração de progesterona não
foi significantemente mais efetiva do que a administração de placebos
(comprimidos sem nenhuma ação terapêutica).
As atuais pesquisas sobre as causas da TPM têm cogitado complexos mecanismos
envolvendo hormônios ovarianos, opióides endógenos (produzidos
pelo sistema nervoso central), neurotransmissores, prostaglandinas, sistema
nervoso autônomo, sistema endócrino, entre outros. As alterações
no hipotálamo também têm despertado grande interesse como
uma das causas desencadeantes mais provável de toda constelação
fisiopatológica.
Um aumento da sensibilidade da pessoa aos hormônios ovarianos também
pode satisfazer algumas teorias das causas de TPM, já que não
se constataram anormalidades nos níveis hormonais (FSH, LH, estrógenos,
progesterona, prolactina ou testosterona) entre mulheres com e sem TPM.
Os níveis de estrogênio aumentam nas três primeiras semanas
do ciclo, assim como aumentam também as endorfinas fisiológicas
(substâncias analgésicas produzidas pelo sistema nervoso central).
Esse aumento é potencializado pelo aumento do hormônio progesterona
seguido da ovulação. Além de sua contribuição
para a sensação de bem estar, as endorfinas também aumentam
as sensações de fadiga queixadas por mulheres com TPM (Halbreich,
1981).
Quando os estrógenos e progesterona diminuem na quarta semana do ciclo,
também diminui a produção das endorfinas. Nesta fase surgem
os sintomas decorrentes da diminuição desse opiáceo (fisiológico),
tais como ansiedade, tensão, cólicas abdominais, cefaléia,
etc.
Os componentes químicos envolvidos no estresse físico e emocional,
como o cortisol e adrenalina, por exemplo, também podem estar aumentados
na TPM. Talvez devido a esse fato, se constatam relações evidentes
entre experiência estressante e maior severidade dos sintomas da TPM nesta
fase do ciclo. Nota-se que quando mais uma situação estressante
persiste durante a fase final do ciclo, maior será o desconforto na TPM.
Atualmente, acredita-se também que as mulheres com TPM sejam exageradamente
sensíveis aos estímulos do sistema serotoninérgico (Gold
& Severino, 1994). Assim sendo, essas pacientes acabam sendo muito mais
vulneráveis aos estressores que as mulheres sem o transtorno. De qualquer
forma, ainda é temerário afirmar categoricamente que o stress
causa TPM ou, ao contrário, que a TPM sensibiliza mais as mulheres ao
estresse. Talvez seja uma situação sinérgica (Atkins, 1997).
Também algumas causas ambientais podem estar relacionadas a TPM. Entre
elas ressalta-se o papel da dieta alimentar. Alguns alimentos parecem ter importante
implicação no desenvolvimento dos sintomas da TPM, como é
o caso, por exemplo, do chocolate, cafeína, sucos de frutas e álcool.
As deficiências de vitamina B6 e de magnésio também estão
sendo consideradas, porém, até o momento, o papel desses nutrientes
na causa ou no tratamento não tem sido confirmado (Halbreich, 1982).
Sabe-se também que as alterações hormonais podem provocar
uma retenção maior de líquidos pelo corpo e em todos os
órgãos femininos. Esse edema é capaz de afetar, inclusive,
a função cerebral, pelo próprio acúmulo de líquidos
no tecido neural. A retenção de líquidos pode provocar
até alterações do estado emocional, tornando a paciente
irritadiça, mal-humorada, inquieta, com certo grau de ansiedade...
Alguns autores atribuem a maioria das alterações observadas na
TPM à retenção de líquidos. Acreditam que esse edema
pode ser responsável pelas dores nas mamas, pelas dores musculares e
abdominais, pelo inchaço das mãos e pés, por alterações
metabólicas e do apetite, por maior consumo de carboidratos, conseqüentemente
pelo eventual aumento do peso e até pelo aumento exagerado na vontade
de comer chocolates e guloseimas que só pioram o quadro geral.
Estudos mostram que em torno de 80% das mulheres em geral apresentam algum
tipo de alteração no período pré-menstrual. A grosso
modo, 17% das mulheres com síndrome pré-menstrual apresenta ciclos
menstruais irregulares com duração menor que 26 dias ou maior
que 34 dias. Entre essas mulheres com TPM, 11% já padecem de algum distúrbio
do humor, normalmente de depressão ou distimia, 5% apresenta transtornos
alimentares, do tipo anorexia ou bulimia. Isso significa que em bom número
de casos as portadoras de TPM já apresentam, antecipadamente, algum transtorno
afetivo depressivo ou ansioso.
O componente hereditário na causa da TPM tem recebido grande destaque
de muitos pesquisadores. Um trabalho de Freeman (1998) mostra que 36% de uma
amostra de mulheres com TPM relatou que suas mães também eram
afetadas pelo distúrbio, e 45% tinha história familiar de transtornos
emocionais sem especificação. A história familiar de depressão
em 73% das pacientes com TPM confirma esta associação e todos
esses dados falam a favor de um componente hereditário na sintomatologia
psíquica no período pré-menstrual.
Para referir:
Ballone GJ - Tensão Pré-Menstrual - TPM - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br , revisto em 2005

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